Contextualização

Justificativa do Curso de Medicina Veterinária

Desde a colonização do Rio Grande do Sul, que começou no início do século XVIII, em meio a disputas entre Portugal e Espanha, a pecuária foi a principal atividade econômica do Estado por mais de duzentos anos. Nascida quase ao final deste período, Uruguaiana teve até a alguns anos, a maior parte de sua fonte de renda da produção animal.

O rebanho de corte teve padrão zootécnico melhorado ao longo dos anos com a importação de gado inglês, americano, argentino e uruguaio. Os campos cobertos com pastagem de boa qualidade, hidrografia abundante e clima apropriado foram determinantes no crescimento da atividade na região. No entanto, métodos mais eficientes de criação desenvolvidos a partir de 1980 não se disseminaram por completo na região e, atualmente, parte significativa da produção animal ainda se caracteriza por sistemas tradicionais de criação extensiva. Estes sistemas tradicionais utilizam apenas pastagens nativas, levando à produção anual de carne/ha relativamente baixa, baixa natalidade, idade ao primeiro parto em torno de 4 anos e abate tardio (4-5 anos), dificultando a concorrência com produtores que adotam técnicas mais modernas de produção e, com isso, conseguem índices melhores. Atualmente, a região de Uruguaiana conta com cerca de 400.000 cabeças de gado de corte.

Uruguaiana é um dos municípios do Estado mais aptos à ovinocultura. Já foi um grande produtor de lã por volta de 1914 e, posteriormente, na década de 40, o rebanho ovino atingiu cerca de 1.400.000 animais, caracterizando-se como maior do Estado na época. Mas no início dos anos 70, houve declínio considerável da produção de lã e os campos deram espaço às plantações de arroz, que apresentava maiores rendimentos na época. A partir dos anos 90, a ovinocultura tem demonstrado recuperação e tendência de aumento na região.

Com relação à produção leiteira, Uruguaiana conta ainda com boa parte da produção comercializada de forma informal, o que dificulta o levantamento de dados. Fica evidente a necessidade de medidas que permitam obter e manter atualizados os dados relativos à produção deste importante segmento. É sabido que existe grande contraste na produção, com alguns produtores investindo em tecnologias e tornando-se referencias em termos de desenvolvimento tecnológico no setor, mas um número expressivo de produtores permanece estagnado e sem recursos para desenvolver seus projetos.

Paralelamente, a equideocultura colabora significativamente como fonte de renda na região. Ao redor do cavalo, no município, circula cerca de R$ 1.000.000,00 mensais. Além destes segmentos pecuários, cita-se a bubalinocultura, ainda discreta, mas em ascensão na região.

Segundo a Secretaria da Agricultura, considerando-se somente a região da grande Uruguaiana (Uruguaiana, Itaqui, Quaraí e Barra do Quaraí), existe atualmente uma população de mais de 1,2 milhões de bovinos, 550 mil ovinos e 70 mil equinos, além da criação de vacas leiteiras e búfalos, em ascensão. Com relação ao número de animais de companhia, a proporção estimada é de um animal para cada 3 habitantes na zona urbana.

Embora a tradição na área agrária e de produção animal da região seja expressiva e tenha sido considerada para proposta de inserção do curso de medicina veterinária neste local, é fundamental que se esclareça que a necessidade deste curso transcende as questões meramente econômicas regionais.

É imperativa a necessidade de formação de recursos humanos em outra área de atuação do médico veterinário: a área da saúde. Os dados relacionados ao IDESE, anteriormente descritos, confirmam a latente carência de atenção à área. Neste interim, ressalta-se que desde 2011, o profissional médico veterinário foi oficialmente incluído nos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASFs) do Governo Federal, o que só veio a refletir a capacitação do profissional como agente promotor de saúde, melhorando saúde coletiva.

Embora Uruguaiana tenha mais de 100.000 habitantes, não há Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de forma que nota-se a expansão plena de zoonoses preocupantes. Dados da prefeitura municipal apontam que em 2005 a população de animais errantes no município foi estimada em 40.000. Dados como este ressaltam a urgente necessidade de políticas de saúde pública na região.

O médico veterinário, sobretudo, possui a capacitação singular para promover saúde animal, seja coletiva ou individual, cuja população (seja de animais de produção ou de animais de companhia) é expressiva na região de Uruguaiana. Existe imensa carência em todos os setores veterinários, com pouca ou nenhuma mão de obra especializada, e, mesmo com este cenário pouco promissor, o município atrai a atenção dos países vizinhos (Argentina e Uruguai) os quais, igualmente, não possuem alternativa próxima para suprimento das necessidades nesta área.

O curso de Medicina Veterinária está inserido no campus Uruguaiana o qual concentra a maioria dos cursos da área da Saúde da UNIPAMPA o que propicia aos alunos desse curso uma maior inserção nas atividades de ensino, pesquisa e extensão em saúde pública, área esta de atuação do médico veterinário. O profissional egresso estará habilitado a atuar na prevenção, controle e erradicação de agravos à saúde animal e zoonoses; tratamento das doenças que afetam os animais; controle da sanidade dos produtos e subprodutos de origem animal para o consumo humano; assistência técnica e extensão rural; pesquisa em diversos campos da sanidade humana e animal.

Pela localização fronteiriça de Uruguaiana e os sabidos tráfego e tráfico de animais na região, que levam ao trânsito de diferentes agentes etiológicos, muitos com caráter zoonótico, torna-se estratégica a atuação de um profissional com conhecimentos técnicos exclusivos do médico veterinário para prevenção dos impactos negativos à saúde pública e dos prejuízos à economia regional.